Nossa História

No princípio, uma granja

seu-di-leite-300x139No meado do século passado, o produtor rural Hamilton Moreira Leite construiu as primeiras “terminações” em alvenaria para engorda de leitões na Fazenda Água Limpa, situada em Jequeri, na Zona da Mata. Na época, a praxe na suinocultura brasileira era largar os animais em pocilgas e alimentá-los à base de restos de comida, ou lavagem. Grosso modo, ninguém empregava a palavra suinocultor. Quem tinha porcos era, simplesmente, criador de porco ou produtor de banha.

Nascido no município de Santo Antônio do Grama, seu Di ou Di Leite, foi um dos pioneiros do vale. As primeiras “maternidades” (cercados de bambu 2 X 2, com piso de tábua) para abrigar matrizes e leitões recém-nascidos, por exemplo, saíram de sua lavra. Inventivo, aperfeiçoou os sistemas de manejo e criação então vigentes, abrindo caminho para a tecnificação das granjas da região.

A Água Limpa foi adquirida em 1943. Lá, Seu Di plantava e colhia café, além de milho, arroz, feijão e cana-de-açúcar enquanto, aos poucos, introduzia suínos e algumas cabeças de gado de corte. No final dos anos 50, a família foi crescendo e a fazenda também. Seu Di comprava leitões, engordava-os e os vendia em feiras livres.

 

Pioneirismo

Na metade dos anos 60, Seu Di percebeu que as lavouras já não davam tanta renda e passou a investir prioritariamente em suinocultura. Começou a testar rações balanceadas (usava muito milho, farelo de babaçu e abóbora, por exemplo) e a selecionar animais, buscando cevados com menos gordura e carne mais magra. Nos primeiros anos, cruzou piau com duroc. Depois, misturou duroc, landrace, pietrain, large white e outras raças até 1975, quando a luz elétrica chegou à região e, com ela, as novidades tecnológicas e as sucessivas linhagens de suínos desenvolvidas pela engenharia genética que ele, enfim, adotou, ajudando a impulsionar definitivamente a criação no vale.

No começo, foi difícil, alguns açougues e pequenas indústrias chegaram a recusar seus animais, alegando que eles tinham carne demais e toucinho de menos. A banha, usada tradicionalmente para conservar e cozinhar alimentos, predominava sobre a carne como produto de maior consumo e valor comercial até os primeiros anos do pós-guerra, quando começou a perder espaço para a emergente indústria de óleos vegetais, mais baratos e práticos. Foi o começo do fim do porco tipo banha, substituído pelo chamado “porco light”. Passados tantos anos, a Granja Água Limpa cresceu, modernizou-se e engoliu a sede da fazenda, mas as primeiras “terminações”, com capacidade para abrigar 300 animais, continuam de pé.

 

Futuro calculado

Os filhos de Seu Di até tentaram outros caminhos, mas acabaram seguindo os passos do pai: são suinocultores. Além de administrar a Granja Água Limpa, João Carlos é proprietário da Granja Bom Jardim, em sociedade com o irmão mais novo, Afrânio. O mais velho dos três, José Ricardo, é dono da Fazenda Oriente, situada nas cercanias do Bairro do Pontal, também em Ponte Nova, e de três criatórios altamente tecnificados na região, além de uma fábrica de ração.

Localizada numa posição estratégica, Ponte Nova fica a 180 quilômetros de Belo Horizonte; a 240 de Juiz de Fora, no outro extremo da zona da mata; a 200 do Vale do Aço (importante centro consumidor, devido à grande concentração de metalúrgicos); a 380 de Vitória, ES; e a 450 do Rio de Janeiro, pólos de importação e exportação, o que facilita o escoamento da produção. “Estamos longe do grão, mas perto dos fregueses. Uma coisa compensa a outra”, diz José Ricardo, ressaltando, no entanto, que o maior trunfo dos criadores do vale não é a geografia nem a base cultural que fez dos mineiros fervorosos apreciadores de carne de porco. “É a união”, esclarece, fazendo questão de frisar que, por conta do entendimento e da relação fraterna entre os criadores, surgiu o Frigorífico Saudali, uma parceria inédita entre 52 ex-concorrentes diretos no mercado nacional de porco vivo.

Responsável pelo abate, corte, fabricação de partes e embutidos de carne suína com a marca Saudali, o frigorífico atua em São Paulo, Rio de Janeiro, Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Pernambuco, Ceará e, naturalmente, Minas Gerais. Toda a produção é rastreada. Se um animal abatido apresentar carne de qualidade inferior à exigida (o cevado deve ter 150 dias, entre 95 e 105 quilos de peso e cerca de 53% de carne magra), é possível a qualquer momento identificar a granja de origem, além de notificar e penalizar o criador. “É uma forma de garantir qualidade ao consumidor e padronizar a criação no mais alto patamar tecnológico”, diz Fernando Soares, um dos integrantes do conselho consultivo do frigorífico, proprietário da Granja Soares, no município vizinho de Urucânia, além de excelente cozinheiro, segundo testemunho geral.

 

Sem segredo

Outra inovação importante — capaz, também, de incentivar a busca do melhor padrão de terminação — é a forma de remuneração dos produtores-acionistas. Eles ganham ágio ou deságio pela qualidade de carcaça, medida logo após o abate por pistola tipificadora, e não pelo peso vivo do animal, como ocorre em outros frigoríficos. “Também temos a vantagem da localização”, ressalta Soares. O Saudali fica próximo do entroncamento da estrada que leva ao município de Oratórios, numa área eqüidistante da maioria das granjas, de modo que nenhum criador tem de percorrer mais de 30 quilômetros para entregar seus cevados. “É um trunfo e tanto, na medida em que reduz bastante e, em muitos casos, elimina o estresse nos cevados e as eventuais quebras (morte de animais) durante o trajeto. Além disso, o pH sobe menos nas viagens curtas, favorecendo a maciez e o sabor da carne e aumentando sua vida útil”, completa João Gualberto, diretor do frigorífico.

Informações retiradas da reportagem “Suinocultura: exemplo mineiro”, publicada na Revista Globo Rural